Ibre - FGV corta previsão do PIB, mas avalia que falar em recessão é "forçar a barra"

Ibre - FGV corta previsão do PIB, mas avalia que falar em recessão é "forçar a barra"

Data de publicação: 25/08/2014

Matéria publicada no Valor Econômico

 

Após a forte deterioração da atividade econômica ao longo do segundo trimestre, especialmente em junho, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas ( Ibre - FGV ) passou a projetar retração de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no período em relação aos três meses anteriores, feitos os ajustes sazonais. Como a recuperação nos próximos meses deve ser modesta, a estimativa para a expansão da economia em 2014 também foi revisada.

Na edição de agosto do Boletim Macro, divulgada com exclusividade ao Valor, a equipe de conjuntura do Ibre prevê alta de apenas 0,6% para o PIB em 2014. A previsão anterior era de crescimento de 1%. Segundo Silvia Matos, coordenadora técnica do boletim, a projeção pode ser novamente cortada. "A retomada no terceiro trimestre está mais fraca do que o esperado. Vemos uma fraqueza muito grande olhando indicadores de confiança e antecedentes da economia em julho", diz.

Mesmo considerando a possibilidade de que o dado do primeiro trimestre seja revisto de alta de 0,2% para queda de 0,1%, Silvia afirma que falar em recessão, ainda que "técnica", é "forçar um pouco a barra". "Sou contra essa ideia, e a favor do que o Ilan [Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco ] disse", referindo-se à visão do economista de que estagnação, e não recessão, é o termo mais adequado para se referir ao desempenho atual da economia. "Como analista, sou mais cautelosa, e acho que a economia parou, mesmo", comentou Silvia. "A toda hora o fator sazonal é revisado, uma hora pode ficar levemente negativo, mas depois o dado pode voltar para o zero ou para levemente positivo."

No segundo trimestre, ela avalia que a construção civil foi uma das principais influências negativas para o PIB, e não descarta que o setor desacelere ainda mais ao longo do ano. O Ibre trabalha com retração de 5,1% para esse segmento da economia em 2014. Se confirmado o resultado, esta seria a maior queda anual da construção na série histórica das Contas Nacionais, que começa em 1996. Em 2009, quando a economia brasileira foi afetada pela crise internacional, a atividade da construção civil ficou 0,7% menor.

Entre abril e junho, a economista calcula que esse componente do PIB teve desempenho pior do que a indústria de transformação, ao recuar 3,7% sobre o trimestre anterior. Já o setor manufatureiro deve ter caído 2,5% na mesma comparação, o que, no cenário do Ibre , levou o PIB industrial a encolher 2,8%, mesmo com aumento de 1,1% da indústria extrativa mineral.

De acordo com a coordenadora técnica do boletim, já era sabido que o ramo de transformação iria perder fôlego em 2014, mas o desaquecimento da construção é um fato novo, provocado pela elevação substancial da taxa de juros observada desde o início de 2013 e, também, pelo crescimento mais moderado da massa salarial. Sem alongamento de prazos e com o custo mais alto dos financiamentos, as famílias contratam menos crédito imobiliário, diz Silvia.

Para os pesquisadores do Ibre , outra novidade ruim que o PIB do segundo trimestre deve trazer é a retração trimestral dos serviços, o que não ocorria desde o fim de 2008, quando o segmento diminuiu sua atividade em 2,7% frente ao trimestre anterior. Nos três meses encerrados em junho deste ano, Silvia espera queda de 0,5% dos serviços, puxada principalmente pelo comércio (-4%) e pelo ramo de transporte (-1%), mas também com comportamento pífio de "outros serviços" (-0,1%).

Sob essa denominação, estão desde serviços de saúde até hotéis e serviços domésticos, observa a economista, segmentos que continuaram no terreno positivo mesmo no pós-crise e, agora, devem ter ficado estagnados na média. "Estamos vendo uma desaceleração maior dos serviços. Esse é um lado mais estrutural do que conjuntural", afirma, apontando que os reajustes mais modestos da renda dos trabalhadores e o desaquecimento na geração de empregos estão afetando a economia como um todo.

Na opinião de Silvia, o impacto da Copa do Mundo sobre a economia foi mais negativo do que positivo no segundo trimestre, mesmo no caso dos serviços, por causa do elevado número de feriados. Um setor ou outro foi beneficiado, como o de hotelaria, mas os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, mostraram um efeito líquido de redução do nível de atividade considerando todas as regiões do país, e não apenas as cidades que sediaram jogos, diz ela.

Por outro lado, o enfraquecimento maior da atividade e seus efeitos iniciais sobre o mercado de trabalho deram algum alívio ao cenário inflacionário. O Ibre já chegou a trabalhar com estouro do teto da meta de inflação em 2014, mas hoje a previsão da entidade para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período é de 6,3%. Segundo Silvia, finalmente os dados de crescimento e inflação estão conversando, ainda que o refresco para os preços seja pequeno. "Provavelmente esse refresco vai continuar no ano que vem, mas temos que ficar vigilantes. Não consigo pensar em redução de juros."