Cresce atuação feminina

Cresce atuação feminina

Data de publicação: 28/08/2014

Veículo: Valor Econômico - Página: 92-94
Data: 28/08/2014

 

Por Maria Carolina Nomura

 

Pela primeira vez, em 70 anos, o Hospital das Clinicas, em São Paulo, tem uma mulher como gestora principal.

A médica Eloísa Bonfá, que também foi a primeira chefe de departamento, em 2004, diz, no entanto, que não percebe o seu cargo como uma questão de gênero. "Como é um hospital ligado à academia, já trabalhamos com meritocracia e, com isso, o processo é embasado em mostrar competência" Atualmente, metade dos oito institutos que compõem o FIC possui mulheres como diretoras executiva "A gestão hospitalar é uma área em grande expansão e atende as demandas de certificação e melhor qualidade que ocorrem no Brasil e no mundo. As mulheres fazem parte desse processo", afirma Eloísa.

 

Hospitais como Beneficência Portuguesa e Rede Sarah (de Brasília) engrossam a lista das instituições de saúde comandadas por mulheres. De fato a feminização da saúde não ocorre apenas nos cargos de gestão, mas em toda a medicina. Estudo do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), publicado em fevereiro de 2013, mostra que a maioria dos médicos com menos de 29 anos é do sexo feminino (54,5%).

O dado contrasta com o número de médicos acima de 70 anos em que apenas 13,76% são mulheres. Um dos motivos para esse aumento de mulheres na medicina decorre do próprio crescimento da população feminina no Brasil. 0 último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que de uma população de 195,2 milhões de pessoas, 51,5% são mulheres, sendo que 60,9% delas concluem a graduação. Aliado a isso, a partir da década de 1970, houve um aumento do número de escolas de medicina no país, o que aumentou a possibilidade de ingresso na carreira. A ferninização daprofissão segue uma tendência mundial: nos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a proporção de mulheres médicas passou de 28,7%, em 1990, para 383%, em 2005.

Em 2000, nos Estados Unidos e Canadá as mulheres eram maioria entre os estudantes de medicina. "A tendência de igualdade numérica de gênero nas profusões é um indicador de desenvolvimento de uma nação", afirma Mário Scheffer, coordenador da pesquisa Demografia Médica no Brasil, em texto dentro do estudo.

Apesar de representar um avanço social, a ascensão das mulheres em cargos de liderança na saúde deve-se a própria competência e mérito, afirma Robson Rocha, professor de gestão da saúde do curso de graduação de medicina da Universidade Anhembi Morumbi.

Para ele, as características típicas de gênero como, por exemplo, o olhar feminino para o cuidado, pouco interferem no resultado. Quandoos profissionais estão eticamente orientados, são competentes e têm boa formação, a questão do gênero fica em segundo e até terceiro plano", acredita.

 

Além de serem maioria na graduação, as mulheres despontam em cursos de especialização. Adriana Maria André, coordenadora do MBA Executivo em Saúde com ênfase na gestão de clinicas e hospitais da Fundação Getulio Vargas, diz que 55,5% dos alunos são mulheres.

"Desse total, 30% ocupa cargos expressivos na liderança, 10% é dona do próprio negócio e 60% está entre os talentos a serem desenvolvidos pela organização ou especialistas que querem ir para a gestão". Adriana acrescenta que a demanda pelo MBA cresce a cada semestre, e a entrada crescente de organizações internacionais no Brasil tem norteado a necessidade de profissionalização da gestão. "Em termos percentuais, são poucas as organizações tanto na área privada como pública ou universitária que tem na sua cúpula gestores profissionalizados e com a competência da liderança", diz. A consequência é uma gestão ineficiente e ineficaz, com decisões tomadas sem visão sistêmica, o que leva a gastos desnecessários, tetrabalho, falta de resolutividade e aumento do índice de queixas.

Para a médica Waleska Santos, presidente do Evento de Saúde Hospitalar, feira e fórum que reúne empresas e profissionais do setor, o ambiente hospitalar é o mais complexo e difícil de ser administrado.

Isso porque são inúmeros os setores implicados, múltiplas as funções de seu corpo de trabalho e vários clientes a serem atendidos, além do cuidado e bem-estar do objeto principal de sua existência: o pacient. Entre as inúmeras dificuldades que se apresentam à gestão de um ambiente hospitalar, Waleskadestaca a pouca percepção da real necessidade da integração entre as equipes multidisciplinares como forma de obtenção de um resultado eficiente e mais efetivo.

"0 próprio conceito de gestão profissional incorporado ao ambiente hospitalar é um ganho dos últimos 20 anos. A simples aplicação dos conceitos básicos de administração empresarial já eleva automaticamente o desempenho dessas instituições", atesta. De fato, Eloísa Bonfá, do HC, diz que o maior desafio enfrentado hoje é fazer com que o sistema de saúde trabalhe de fato em rede. "Um leito em hospital terciário como o nosso é muito caro para um paciente que não tem uma doença grave e acaba ocupando o lugar de um paciente que precisa de um atendimento mais complexo. Um exemplo de eficiência do HC é o mapa de 2,2 mil leitos, que deve ser ampliado em breve.

O acompanhamento da ocupação, bloqueios, reservas é feito em tempo real, transparente para todos do complexo e permite definir não só as metas de ocupação, mas o seu uso mais adequado. "0 grande ensinamento que tivemos com a instalação desse tipo de gestão é que torna visível processo para todos e trazer dados consolidados são os melhores argumentos que o gestor tem para conseguir mudanças", diz Eloísa.

Para a médica, a melhora na gestão é decorrente não só dos avanços tecnológicos, mas, principalmente, do avanço nos processos. Isso inclui a informatização em todos os níveis e o foco na segurança e qualidade. No Hospital 9 de julho, além do prontuário eletrônico, foram adotados painéis de monitoramento em todos os andares das unidades. Oobjetivo, segundo o diretor da instituição Alfonso Migliore, é otimizar a gestão dos leitos, porque todos os médicos podem acompanhar a situação de cada paciente internado. O hospital investe em processos assistenciais e administrativos. Temos, por exemplo, um grupo responsável por orientar o paciente e seus familiares sobre como cuidar da saúde não apenas durante a internação, mas tarnbém em casa, depois da alta. Esse compartilhamento de informação o ajuda a ter mais qualidade de vida e a manter o bom resultado do tratamento", aponta Migliore. A humanização do olhar ao paciente, que poderia ser tida como uma prerrogativa da mulher, faz cada vez mais parte da política dos hospitais não necessariamente comandados por elas. O Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graaec), por exemplo, possui uma equipe multidisciplinar que busca minimizar os efeitos do câncer e oferece aos pacientes apoio psicológico, assistência social e serviço social.

A instituição possui ainda o projeto Escola Móvel, que, desde 2000, traz professores particulares para atender as crianças e adolescentes internados para que não percam o ano letivo. Sergio Amoroso, presidente cio Graacc, conta que a gestão do hospital - cujo orçamento para 2014 é de R580 milhões - é feita com visão privada, mas partilhada entre empresários e médicos. "Isto traz um debate interessante que leva o equilíbrio entre os números que são frios e a humanização do tratamento."