AS MULTIFUNÇÕES DE CADA UM

AS MULTIFUNÇÕES DE CADA UM

Data de publicação: 29/08/2014

Alexandre Rolim, mestre em gestão de pessoas e coordenador do curso de Administração da FGV/Faculdade IBS

 

 

Antes, pensava-se que quando atingíssemos o domínio tecnológico, teríamos tempo de sobra. Hoje, temos nos tornado cada vez mais multitaskers. Precisamos ter um bom desempenho no trabalho, estar conectados a diversas informações o tempo todo, ser um pai ou uma mãe presente, gerenciar a casa e vida pessoal, e, no final do dia, ter disposição para estudar uma graduação, MBA ou uma Pós para não ficarmos para trás na profissão e garantirmos maior conhecimento na área. Nessa busca incessante para ganhar tempo, temos cada vez mais a sensação de perdê-lo.

 

Vivemos em um sistema que costumo denominar como Sociedade da Transferência. Nessa sociedade, recebemos diversas funções e tarefas que devem ser executadas em um determinado espaço de tempo. Realizamos as que são importantes e delegamos as que não são para outras pessoas. Quando essas se recusam a realizá-las, buscamos uma forma de criar um complexo de culpa, para que a pessoa para a qual delegamos a tarefa, nos entregue o resultado como forma de “comprar” essa desculpa.

 

A sensação de não ter controle sobre o tempo vem se transformando em um dos maiores geradores de estresse na atualidade. Apesar de ser visto por muitos como um país com elevado grau de felicidade, o Brasil é considerado o país com maior índice de estresse do mundo, segundo pesquisa feita pela empresa de recrutamento Robert Half. O estudo revelou que mais de 40% dos trabalhadores sofrem frequentemente de estresse e ansiedade em seu emprego, enquanto a média mundial é de 11%. O excesso de carga de trabalho foi a principal causa apontada pela pesquisa (52%).

 

Há diversas formas para as organizações condicionarem seus funcionários a buscarem melhores resultados. Muitas vezes são oferecidas recompensas, melhorias na forma e na qualidade do trabalho, o que costuma gerar um estresse positivo. Porém, também existem formas de buscar resultados que geram um estresse muito negativo. Uma delas é gerar o complexo de culpa, que faz o colaborador se sentir na obrigação de melhorar constantemente seus resultados se tornando uma espécie de dependente do trabalho.

 

O Complexo de Culpa sempre é negativo, pois é uma forma de exercício do poder sobre outra pessoa. Já tive contato com algumas pessoas que sofreram esse tipo de assédio em empresas. Essas pessoas acabam se tornando verdadeiras prisioneiras. Elas vivem em estado de alerta, não conseguem mais arrumar tempo em suas agendas pessoais, pois estão sempre pressionadas a entregarem resultados que não se julgam aptas a apresentarem. A vida dessas pessoas acaba se tornando um verdadeiro inferno, pois elas nunca conseguem apresentar um resultado que seja satisfatório. Já viu aquele filme "O Diabo Veste Prada"? Aquela secretária vivida pela Anne Hathaway sofre de um assédio como esse. Esse é um dos fatores que aumentam muito o estresse profissional e que torna difícil o gerenciamento de suas agendas pessoais.

 

Fazer uma avaliação do que é de fato essencial, planejar a carreira, definir as prioridades, avaliar parcerias para divisão de tarefas, terceirizar o que não é importante é uma forma de tentar equilibrar essas funções e diminuir o sentimento de culpa. É como se gerenciássemos uma empresa, avaliando o custo benefício de cada decisão. Assim,  tentamos não prejudicar o que é mais importante nesse processo como a família, por exemplo. Pessoas que definem por significados gerais o conceito de sucesso e não conseguem entender que o gerenciamento de suas agendas pessoais requer um pouco de sacrifício, geralmente, não conseguem atingir seus objetivos  e se tornam frustradas.