Um novo mercado voltado para quem é ambientalmente correto

Um novo mercado voltado para quem é ambientalmente correto

Data de publicação: 16/09/2014

Publicada no O Globo

 

POR ELIANE OLIVEIRA

14/09/2014 6:00 / ATUALIZADO 14/09/2014 8:58

 

BRASÍLIA - A demanda em alta por produtos e serviços feitos de forma social, ambiental e politicamente correta propiciou o surgimento de um novo mercado: o de empresas cujo trabalho é auxiliar outras companhias a cumprirem requisitos de sustentabilidade. São, na maioria, firmas de micro ou de pequeno porte, criadas há menos de dez anos e, em muitos casos, com atuação no Brasil e no exterior. Apesar do tamanho, costumam ter grandes grupos econômicos como clientes e áreas de atuação tão diversas que vão do tratamento de ambientes, alimentos e fluidos até cosméticos não testados em animais e fornecimento de tecidos ecológicos, entre outras atividades.

 

A Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e a Fundação Getulio Vargas (FGV) têm uma parceria para apoiar empresas com projetos do gênero interessadas em exportar. De 58 candidatas, 12 micro e pequenas empresas conseguiram entrar no programa. Juntas, elas têm um faturamento aproximado de R$ 36 milhões e contratam 211 funcionários.

 

— Essas empresas são para o mundo e não só para o mercado brasileiro. Fazem parte da chamada nova economia. São empresas pequenas, que atendem gigantes — explica a diretora de Sustentabilidade da Apex, Adriana Rodrigues.

 

Paulo Branco, coordenador do Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV, afirma que as empresas, apesar do pequeno porte, têm grande agilidade para promover inovação. Segundo ele, há um esforço internacional para aumentar o fluxo de capital para a chamada economia verde.

 

— Estamos identificando o que existe de recursos e os principais gargalos — acrescenta.

 

NATURAL NÃO É SINÔNIMO DE CARO

 

E até o ar entra nesse negócio. A Brasil Ozônio fabrica o gás de cor azul claro, que permeia e protege a Terra a partir de moléculas de oxigênio. Capaz de matar qualquer tipo de micro-organismo, como vírus e bactérias, o ozônio é usado para esterilizar material cirúrgico, higienizar alimentos e até limpar piscinas, como a da Granja do Torto, uma das residências oficiais da presidência da República.

 

— Nossa matéria-prima é o ar e nosso processo é 100% correto ambientalmente. Tratamos tanto o poço artesiano como o esgoto — diz Samy Menasce, da Brasil Ozônio.

 

Já a Terpenoil, empresa de tecnologia orgânica, substitui produtos de origem petroquímica e sintética por equivalentes naturais. O leque de atividades é amplo: de limpeza automotiva a tratamento de ar e emissões. O desafio, segundo Marcelo Ebert, diretor executivo da empresa, é explicar que natural não é sinônimo de mais caro:

 

— Vivo meu dia a dia para fazer um trabalho de convencimento, para mostrar que isso não é verdade. Nossos produtos chegam a ser 5% a 10% mais baratos.

 

A presença destes serviços já pode ser vista até em camisetas. Os designers Claudio Rocha e Marisa Ferragutt, viram em 2009 que havia espaço para produtos têxteis originalmente sustentáveis. Hoje, a empresa já fez o revestimento de cadeiras VIP do Maracanã e tem como clientes Alexandre Herchcovitch, Levi's, Osklen, Coca-Cola, Klin, Micasa, Alpargatas, Converse, Adidas, Reserva e Tok&Stok.

 

— O consumo moderno e o do futuro procuram minimizar impactos ambientais, com tecnologia, reuso, evitando o desperdício e o lucro às custas de mão de obra tratada de maneira indigna. Repetir o tratamento dado ao trabalhador chinês, por exemplo, para reduzir custos é a antítese do sustentável — diz Rocha.

 

NÃO BASTA PARECER

 

O setor de cosméticos é um dos mais visados, em razão das críticas recorrentes aos testes com animais. A vigilância começa desde os insumos usados nestes produtos. De olho neste nicho, a Ikov Organics, fornece ingredientes vegetais, orgânicos e especiais para indústrias cosméticas, farmacêuticas e alimentícias.

 

— A empresa nasceu do interesse de atuar de forma sustentável na cadeia produtiva de óleos vegetais nobres, obtidos por meio de prensagem à frio. Não utilizamos qualquer aditivo químico - conta ele, acrescentando que a empresa está presente nos Estados Unidos, no Canadá, na França, na Estônia, na Lituânia e já fechou contratos com Austrália e Emirados Árabes.

 

Hoje, já não basta parecer sustentável, é preciso ser capaz de comprovar a origem do produto. É nessa seara que atua a Safe Trace. A empresa rastreia alimentos, de castanhas produzidas no Pará a bovinos exportados para a União Europeia e outros mercados.

 

— A rastreabilidade é uma ferramenta de comprovação de sustentabilidade. Empresas que compram do Brasil estão preocupadas em saber, entre outras coisas, se o produto saiu de um desmatamento ilegal ou se havia trabalho escravo — ensina Vasco Picchi, diretor executivo da Safe Trace.

 

Sua equipe presta consultoria a empresas nacionais e estrangeiras. Vai a campo com papel, caneta, brincos com chip de computador (que podem ser colocados no bovino) e fornece informações aos solicitantes.

 

— As empresas estrangeiras estão em busca de fornecedores confiáveis no Brasil — diz Picchi.