Seu suor vale muito

Seu suor vale muito

Data de publicação: 16/09/2014

Publicada no Estado de Minas

 

Educadores financeiros explicam que para entender o que é caro ou barato para o orçamento é preciso calcular o valor das horas trabalhadas. Fórmula pode ajudar a sair do vermelho

 

Marinella Castro

 

O advogado Otávio Rocha coloca os gastos e compromissos financeiros na planilha e diz que pode parecer chato, mas é fundamental (foto)

 

Você consegue identificar nas contas do dia a dia o que é caro para você? Já comprou algo e depois chegou à conclusão de que pagou um preço alto demais? Para especialistas em educação financeira, o conceito subjetivo do caro e do barato pode ser traduzido de forma bem objetiva: caro é tudo aquilo que extrapola o orçamento. Chegar a essa conclusão é um caminho de pedras para muitos, mas algumas mudanças de comportamento podem ajudar a desvendar o que não cabe no caixa. Ajuda muito para ficar no azul uma conta simples, mas desconhecida por muitos brasileiros: saber quanto vale o dia de trabalho ou a hora, mesmo que o salário seja mensal. Fazendo essa conta, pode-se chegar à conclusão de que a calça de R$ 300 é um excesso e o almoço que vai de casa para o trabalho realmente é um bom negócio.

 

Na média dos últimos 12 meses, as famílias brasileiras comprometeram 45,7% de seu orçamento com o pagamento de dívidas, percentual que se mantém em patamar recorde. Em 2005, quando teve início a série do Banco Central que chega ao percentual, a fatia do orçamento comprometido era de 18,3%. Com o avanço da inflação, manter as finanças em dia se torna ainda mais desafiador. “Consumir é uma sabedoria. Grande parte da população não faz contas de quanto tempo precisa trabalhar para adquirir um produto e aí tem noções erradas do que é barato. Gasta além da conta”, aponta Maria Inês Prazeres, especialista em educação financeira.

 

Segundo ela, como o tempo consumido no trabalho envolve também o deslocamento, para saber exatamente quanto vale sua hora de labuta o consumidor deve acrescentar a ida e volta ao cálculo e dividir esse resultado pelo valor líquido que recebe no fim do mês. “Assim, pode-se concluir que é preciso trabalhar demais para comprar um celular. Essa noção ajuda as pessoas, por exemplo, a tomar a atitude de buscar promoções, substituir marcas e se manter dentro do orçamento”, alerta.

 

Outro ponto importante de controle é o viés emocional. “Ao identificar que um produto é caro, que ele vai extrapolar o orçamento, mas se mesmo assim se sente tentado, o consumidor deve pensar se de fato precisa do que vai comprar e em quanto tempo vai trabalhar para quitar o compromisso, o que pode evitar uma compra cara e por impulso.”

 

CONTROLE O estudante Lisiomar Ramos, de 26 anos, que trabalha em um escritório de advocacia, chegou a descontrolar seu orçamento com a compra de produtos como moto e televisão. Ele nunca parou para pensar em quanto vale sua hora de serviço e quanto tempo precisou trabalhar para pagar os produtos, mas agora que se livrou das dívidas mudou de postura e considera bem o seu orçamento mensal antes de fazer compras. Prático, ele traduz rapidamente o que considera caro ou barato: “Caros são os juros cobrados pelo banco. Hoje eu prefiro juntar o dinheiro e comprar à vista. Isso é barato”, diz.

 

Lisiomar tem razão. A taxa básica de juros da economia, que já esteve em 7,5%, foi mantida pelo Banco Central no patamar de 11% ao ano. “Comprar um produto que vai levar todo o salário do mês e fazer o consumidor se endividar, na minha opinião, não é realizar um sonho de consumo. Isso é falta de educação financeira”, diz o advogado Otávio Túlio Rocha, que contabiliza bem o valor de sua hora trabalhada e sempre pensa nessa matemática antes de consumir.

 

Exemplo de organização, ele anota todos os seus gastos e compromissos financeiros, pequenos e grandes, em uma planilha feita no Excell, mas já testou também aplicativos modernos. Ele diz que o hábito, que no início pode parecer chato ou cansativo, é a chave para a organização. Ele reconhece que a adaptação ao modelo pode levar algum tempo. “Comecei a ter essa organização ainda criança. Na minha família tive uma educação financeira, o que faz muita diferença”, observa.

 

PROJETOS Com seu modelo, Otávio guarda parte de seus rendimentos para emergências e para realizar projetos. Com isso, já comprou a casa própria e fez viagens para outros países. Antes de adquirir a moradia, Otávio comprou um caderno e pesquisou por dois anos. No momento de fechar o negócio conhecia exatamente o mercado imobiliário da região onde queria morar, mantendo suas contas em dia mesmo com o compromisso financeiro de grande porte. “Assim como uma empresa e uma prefeitura têm seu orçamento, as famílias também devem ter esse planejamento.”

 

Por mais simples que possa parecer, o segredo para se manter no azul, segundo Ewerson Moraes, professor de finanças da Faculdade IBS/FGV, está na “conta do padeiro”. Anotar os gastos, pequenos e grandes, é a saída para que a luz amarela seja claramente acionada quando o consumidor entrar em risco. O professor lembra com um exemplo próprio de que aqueles itens baratinhos também podem ser uma armadilha perigosa. “Diariamente gastava R$ 3 com um chicletes. Ao ir ao supermercado e comprar uma caixa do produto, cada um custou R$ 0,50, economia de R$ 2,50 ao dia e de aproximadamente R$ 600 ao ano.” Os gastos miúdos, como os feitos com guloseimas, podem fazer diferença. “Se todos eles forem somados podem no fim do ano render uma viagem.”

 

Se no aplicativo, na planilha ou no caderno, as despesas são anotadas com disciplina e o caixa teima em não fechar, Ewerson Moraes diz que o recurso é aumentar os rendimentos. “Um passo importante é não pensar no tempo comprometido com o trabalho, mas no tempo livre ao chegar em casa. O tempo não ocupado pode ser preenchido para gerar nova fonte de renda”, diz o professor.