Surpreendente

Surpreendente

Data de publicação: 01/10/2014

Terezinha Moreira

 

O processo eleitoral deste ano é tido como um dos mais emocionantes da história do país. A ascensão e queda da candidata do PSB, Marina Silva, o aperto de Dilma Rousseff (PT) e o fraco desempenho de Aécio Neves, que deixou para trás a polarização do PSDB com o PT, foram alguns dos ingredientes dessa disputa. O ponto negativo é que as redes sociais, utilizadas com mais frequência nesta campanha, não foram bem aproveitadas pelos candidatos, que, segundo analistas, não conseguiram promover a interação com o eleitor.

 

Na avaliação de Rudá Ricci, doutor em ciências políticas e sociologia, a eleição tem um fantasma que reporta às manifestações de junho de 2013. “O fantasma é uma quantidade muito importante de brasileiros, cerca de 30%, que estão desencantados com o sistema partidário. Em junho, os nomes mais citados para presidente eram Marina, Aécio e Lula, que não foram confirmados até a morte de Eduardo Campos.” Segundo ele, o sistema partidário dificilmente indica os nomes que aparecem nas ruas.

 

Com candidaturas oficializadas, começa a campanha com a polarização clássica entre PT e PSDB, mas com problema em relação a eles. No caso do PT, a desidratação de Dilma em função da crise de representatividade aberta em junho de 2013 e da economia com indicadores mornos. Além disso, a petista é tida como extremamente dura e sem nenhum traquejo para dialogar e convencer a população. O problema de Aécio começou dentro de seu próprio partido, onde enfrentou oposição, principalmente em São Paulo. Outra questão foi a dificuldade do tucano em penetrar no Nordeste. “E ainda tem seu discurso anacrônico. O Aécio parou nos anos 1990. A agenda da visão empresarial da gestão, do estado mínimo e da privatização caiu no mundo inteiro em 2008 com a crise imobiliária dos Estados Unidos. A agenda do Aécio está invertida. Nesse momento, toda a economia precisa do estado”, critica.

 

Mesmo com esses erros, ainda ocorreu a polarização entre tucanos e petistas. Com a morte de Campos, um dos nomes aclamados pelas ruas entra na disputa. Com isso, Marina Silva retirou 2 terços do eleitorado do pastor Everaldo, abocanhou metade dos indecisos e dos que votariam em branco e anulariam o voto, superou Aécio Neves e quase empatou com Dilma Rousseff. Mas vários erros foram cometidos pela campanha da pessebista. Um deles, o de pensar que seu crescimento tinha sido impulsionado pelos evangélicos, o que também coincidiu com a negociação com o agronegócio e o setor bancário. “Parte de seu eleitorado percebeu que ela é igual a Dilma. É um mistério que existe no Brasil: quando um político tem chance de se eleger, ele não consegue devido ao conservadorismo econômico”, diz Rudá Ricci, para quem Marina errou feio ao não se apresentar como a candidata dos descontentes.

 

Com a subida exponencial nas intenções de voto, Marina começou a ser alvo de confrontação de Aécio e Dilma. “Mostraram uma série de inconsistência entre o seu discurso e as composições políticas, como alianças com o PSDB paulista e o agronegócio, a defesa da independência do Banco Central, discurso religioso com temas morais que impactam na vida de grupos e segmentos minoritários e também o fato de ceder a pressões de grupo que se aliaram a ela. Essas contradições apareceram com muita força para o eleitor”, analisa Robson Sávio, coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas. Para ele, como vice, Marina era discreta, tinha discurso mais neutro, mas mantinha suas posições. Como candidata, ratificou suas contradições destacadas por Aécio e Dilma.

 

Parte delas foi destacada nas redes sociais, que deram um tom mais agressivo nesta corrida eleitoral. No entanto, na avaliação de Rudá Ricci, essa ferramenta não interfere muito no processo porque não houve interação dos candidatos com os eleitores. “Os partidos não sabem usar as redes sociais para conquistar votos, só para atacar os adversários. A campanha lá foi a pior possível”, diz. Para Robson Sávio, por outro lado, elas quebraram o monopólio da mídia tradicional, que não consegue pautar o debate político por causa da democratização da comunicação. “A ferramenta foi importante, visto que 25% dos gastos das campanhas foram direcionados para as redes sociais e similares. Os eleitores começaram a utilizar esses espaços para discutir política.”

 

Para o publicitário Marcus Vinicius Ribeiro, os candidatos poderiam ter explorado melhor essas ferramentas. “Mas ainda estão em fase de aprendizado, com muito combate e denúncias. Alguns até mostraram sua plataforma de governo e propostas. Mas a maioria apenas criticou os oponentes. O fato é que ainda não acertaram a medida nas redes sociais.” O ideal, segundo ele, é aproveitar o espaço para mostrar suas propostas porque a guerra suja que foi travada nas redes cansou o eleitor. “Do ponto de vista do marketing, foi uma campanha difícil de se trabalhar porque está complicado interpretar o que o eleitor quer. No ano passado, com as manifestações, as pessoas desenhavam cenário de insatisfação, acenando para a mudança de governo, mas na reta final, optam pela continuação.”

 

No que tange ao marketing, houve uso muito instrumental das ferramentas, na avaliação de Nino Carvalho, coordenador dos cursos de MBA e pós-MBA em comunicação e marketing digital da FGV/Faculdade IBS. “A adoção infundada às diversas ferramentas deveria ter dado lugar a estratégias para filtrar dados e usá-los para tomada de decisões. Todos usam as redes sociais, mas os políticos não as utilizaram para ver o que os eleitores queriam para construírem propostas de governo.” Ao contrário, segundo Carvalho, pessoas foram contratadas para colocar posts errados, criar perfis falsos. “O uso equivocado do marketing foi ampliado com mais esta ferramenta.” Ele diz que propostas para educação, saúde, emprego não foram focadas a fundo pelos candidatos.

 

Talvez o erro de todos os postulantes à Presidência faça com que os brasileiros, que estão insatisfeitos com a presidente Dilma, votem nela mesmo assim. “O eleitor tendia a votar no novo, mas como percebeu que não era tão novo, optam pelo seguro, mas sem grande esperança. Caso a Dilma se reeleja e cometa algum erro no segundo mandato, ele será menos tolerado do que foram os do primeiro governo dela”, alerta Rudá Ricci. Ele define as eleições 2014 como uma das mais surpreendentes, emocionantes e erráticas de toda a história do Brasil, o que se dá de forma significativa por causa do fantasma de junho de 2013. “Se a Dilma for reeleita, terá governo muito pior do que o primeiro por causa das dificuldades econômicas e das questões políticas. Ela se elege em 2014 com suspiro e não com festa.”

 

Em Minas, onde as pesquisas apontam vitória do petista Fernando Pimentel no 1º turno, Robson Sávio diz que a estratégia do ex-ministro de se descolar de padrinhos políticos foi exitosa. Já o tucano Pimenta da Veiga colou em Aécio que, por causa da disputa nacional, não teve como se dedicar à campanha em Minas para alavancar a candidatura do PSDB ao governo do estado. “O Pimentel mostrou-se como prefeito eficiente. Subiu muito rápido nas pesquisas.” Mas a coesão interna no PT e também com o PMDB foi importante para isso. “O fato é que ninguém esperava que o candidato do PT fosse se posicionar tão bem depois de 3 mandatos consecutivos dos tucanos em Minas”.

 

Publicado na Revista Viver 

Edição 138 - 03/10/2014

Foto: Divulgação