O desafio do aquecimento

O desafio do aquecimento

Data de publicação: 27/01/2015

O mundo está mais quente e o calor que nos consome desde o fim de 2014 é apenas uma amostra disso. Era, inclusive, é uma preocupação visível durante a Conferência Climática das Nações Unidas, COP 20, realizada em dezembro em Lima, Peru, em que se discutiu o desafio para superar os problemas decorrentes das mudanças do clima e prevenir catástrofes. Os Estados Unidos e a China firmaram um compromisso para reduzir as emissões de gases efeito estufa (GEE). A União Europeia continuará a fazer o dever de casa; países sem metas de redução de GEE foram chamados a se comprometer em um novo acordo que está sendo costurado. Entretanto, a conferência, apesar de importante, não acaba com a necessidade de medidas imediatas e diárias que podem e devem ser desenvolvidas com o intuito de amenizar o problema.

 

Os sucessivos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) apresentam dados confirmando que a aceleração das mudanças no clima resulta do nosso modo de consumir e produzir, desde meados do século XX. Dentre as consequências mais evidentes, estão dias mais quentes e a elevação do nível do mar. Mais um ano de seca está sendo previsto. A estiagem do último verão, vivenciada pela região Sudeste, mostrou como estamos despreparados para lidar com dias mais quentes, racionamento de energia e de água.

 

O consumo de energia residencial, industrial, comercial e em locais de lazer merece ser repensado, tendo em vista a previsão de maior consumo nesses locais e com a refrigeração de alimentos. A matriz hídrica do Brasil precisou ser complementada por termoelétricas na última estiagem. Hoje, essas energias são mais baratas, quando comparadas às alternativas em desenvolvimento, mas intensificar seu uso não se mostra a melhor alternativa devido à emissão de gases efeito estufa que apresentam. Então, por que não diversificar e trabalhar sob a perspectiva de complementação da energia atual com outras fontes renováveis?

 

No transporte, evidenciou-se o incentivo à venda de carros de passeio pela redução do IPI, congelamento do preço da gasolina e financiamento a perder de vista. A mobilidade urbana precisa ser revista, estimulando o transporte coletivo, as caminhadas e o uso de bicicletas de modo a propiciar a diminuição da poluição e do estresse no trânsito.

 

Temos como desafio tornar nossas cidades e edificações mais amenas ao calor sem abusar da energia elétrica; viver com menos água, diminuir os desperdícios, prever e planejar o deslocamento de populações que poderão perder seu habitat pela submersão de ilhas e erosão de faixas costeiras.

 

Um olhar sobre a arquitetura do passado aliado à inovação de materiais talvez possa nos dar uma resposta. Ecoeficiência nas construções, o esverdeamento da cidade com a implantação de telhados verdes, arborização urbana e recomposição da mata e de ecossistemas perdidos, além da conservação de nascentes, a fertilização do solo e a absorção de carbono. Tudo isso depende de acordos internacionais, mas podemos fazer algo no dia a dia.  Diminuir o lixo que produzimos é também de extrema importância. Na natureza, nada se perde, tudo se transforma por meio da cadeia alimentar, que pode nos servir de exemplo. Enfim, uma cadeia produtiva de uso, reuso e reciclagem, na qual o resíduos de um processo é a matéria prima de outro. 

 

A oportunidade de novos negócios e a extinção de outros está apresentada pela mudança do clima e também a chance de sermos solidários com os membros de nossa espécie e o que nos cerca, pois somos parte da natureza e nossa vida depende dela.

 

Susana Feichas – Coordenadora do MBA em Gestão do Ambiente e Sustentabilidade da FGV/Faculdade IBS

 

Publicado no jornal Estado de Minas. Para ver o original, clique na imagem.