Inovação para liderar

Inovação para liderar

Data de publicação: 28/05/2015

Exemplos de trabalho duro, perseverança e visão estratégica, os executivos mais conceituados do Brasil são reconhecidos por novos modelos de gestão. Segundo pesquisa, saber inovar é uma das capacidades que os CEOs do futuro devem desenvolver.

 

No comando de companhias de destaque no mercado empresarial, eles têm muito o que ensinar aos aspirantes a líderes e trazem lições de vida sobre formação educacional, perseverança, trabalho duro e uma dose de sorte. O Correio falou com quatro dos mais importantes CEOs do país, listados pela revista Forbes de abril entre os 10 melhores do Brasil (veja quadro), de acordo com critérios de inovação na liderança. Os nomes foram escolhidos por um grupo de 18 jurados, formado por gestores de consultorias e especialistas em governança corporativa, que enxergou nos empresários um jeito novo de liderar.

 

É o caso de Cledorvino Belini, 66 anos. Há mais de quatro décadas na Fiat, ele é o diretor-presidente do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA) para a América Latina há uma década. Com o tempo de casa, aprendeu que habilidades para valorizar pessoas, agilizar processos, investir em inovação e saber ouvir estão entre as principais características de um bom líder. “Desde cedo, tive muita curiosidade e vontade de aprender. Determinação, ousadia e energia para enfrentar os desafios foram determinantes na construção da minha carreira. Busquei sempre entender como as coisas eram feitas e, com humildade, propor alternativas para que fossem realizadas de uma maneira mais eficiente. Tenho sede de aprender, e é ela que me renova todos os dias”, afirma o paulistano, formado em administração de empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduado em finanças pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Outro presidente com muita história para contar é o carioca Frederico Fleury Curado, 53 anos, à frente da Embraer há oito. Na companhia desde 1985, atuou em diversas posições antes de chegar ao cargo de diretor-presidente. “Não acredito em um planejamento determinístico de carreira, mas sim num contínuo investimento em aquisição de conhecimento e habilidades, aliado a uma constante atenção a oportunidades. Nesse sentido, cada carreira é única, mas creio que, quanto maior a diversidade de experiências, maiores as chances de crescimento”, percebe o engenheiro mecânico e aeronáutico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com MBA em administração de empresas pela USP e pós-graduação em comércio exterior pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

 

Questionado sobre o que mudaria na trajetória profissional, diz que gostaria de diminuir o estresse inerente à atividade de comandar uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo. O conselho que ele dá aos jovens que querem chegar a uma posição de destaque é pensar grande. “É preciso sonhar alto e manter os pés no chão. Tenha mobilidade e coragem de mudar. Vontade de crescer é uma força, mas ser controlado pela ambição é uma fraqueza. É preciso confiar nas pessoas e na organização a que pertence; caso contrário, busque outra companhia, onde possa dedicar o melhor de si sem reservas”, orienta.

 

Olhando à frente

 

Além de aprender com a experiência de quem chegou a altos postos, é preciso olhar para o futuro. As capacidades que serão mais requisitadas nos líderes do amanhã incluem pensamento estratégico, poder de atração e retenção de talentos e adaptabilidade, de acordo com pesquisa da empresa de consultoria PwC, que ouviu mais de 1,3 mil CEOs em todo o mundo (veja gráfico). Segundo o levantamento, será preciso investir em tecnologia e diversidade para se destacar no mercado. Na visão de Gustavo Ene, CEO do Grupo de Líderes Empresariais (Lide) — organização que reúne 1.620 empresas de 12 países pelo fortalecimento da livre iniciativa —, a disposição para fazer cursos e conhecer outras realidades é cada vez mais importante diante de um mercado de trabalho tecnológico. “Ter uma relação próxima com as tecnologias, saber usar as redes sociais e investir em atualização será fundamental para acompanhar as mudanças de um mundo que se transforma cada vez mais rápido”, avalia.

 

“Nos últimos anos, o principal desafio apontado por altos executivos é a disponibilidade de força de trabalho qualificada. Essa preocupação cresceu de 58%, em 2013, para 73%, em 2015”, aponta Hugo Teóphilo, gerente sênior da PwC Brasil e especialista em gestão de capital humano. “Com isso, é preciso investir em formas mais eficientes de recrutamento e seleção — que identifiquem os candidatos mais adequados —, incluir métricas que meçam as competências dessa força de trabalho com dados objetivos e reforçar programas de treinamento e desenvolvimento de pessoas”, conclui.

 

Há 35 anos em empresas do setor elétrico, Wilson Ferreira Júnior, 56 anos, destaca o empenho como requisito para obter êxito. “O único local onde sucesso vem antes de trabalho é no dicionário. É preciso perseverar muito, pois você não encontrará um caminho pavimentado, terá de fazer a pavimentação”, diz o presidente da CPFL Energia, empresa onde trabalha há 18 anos. De São Paulo, Ferreira é formado em engenharia elétrica e administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com mestrado em energia pela USP. Em concordância às conclusões da pesquisa da PwC, ele acredita que uma das dificuldades das lideranças é atrair e reter talentos. “Não há ‘matéria-prima’ em abundância, então, é preciso engajar as pessoas ao máximo para que elas permaneçam motivadas”, diz.

 

Na opinião da coach Sabrina Ferroli, um importante instrumento para a evolução de um líder é a inteligência emocional. “Normalmente, quem chega a postos altos tem conhecimento técnico, mas há dificuldade em comunicar objetivos de forma clara. É preciso identificar as próprias emoções e as dos demais para saber como engajar as pessoas”, analisa. Sabrina afirma que as gerações mais novas cobram cada vez mais um propósito para aquilo que fazem. “Quando as pessoas não veem sentido na função que exercem, o trabalho é comprometido. As empresas que geram números mais expressivos são aquelas que defendem um propósito”, defende.

 

A valorização do fator humano é um dos conselhos que o diretor-presidente do grupo CCR, Renato Alves Vale, 67 anos, dá aos futuros líderes. Formado em engenharia civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele ocupa o posto na companhia de concessões rodoviárias desde 1999. “No grupo CCR, você dificilmente verá um colaborador exercendo a mesma função desde a chegada na empresa. Nossos colaboradores estão sempre evoluindo na carreira e, com o estímulo da companhia, buscando novos desafios. Isso é fundamental para manter a motivação do grupo. Também investimos fortemente na formação técnica da equipe e na governança corporativa para garantir um bom ambiente de trabalho.” Na opinião de Hugo Teóphilo, a diversificação de experiências é um dos fatores-chave para ter mais chances de chegar a um alto cargo de liderança. “Ter bagagem diversificada e relevante, dominar uma língua estrangeira, estar atento ao que surge no campo da tecnologia e não parar de aprender são fatores importantes para quem pretende se destacar.”

 

Publicada no Correio Brasiliense