Impeachment, Lava Jato e governabilidade

Impeachment, Lava Jato e governabilidade

Data de publicação: 15/12/2015

Política e economia são áreas entrelaçadas e se há problemas em uma delas, a outra é consequentemente afetada. Para o bem ou para o mal, o processo do impeachment foi deflagrado e será agora que teremos uma definição.

 

Seja qual for a decisão, ao final do processo, será menos uma incerteza no nosso horizonte e isso é positivo para a economia, que está parada devido principalmente às incertezas políticas que inviabilizam qualquer planejamento de médio e longo prazos.


Em finanças, os teóricos diferenciam riscos de incertezas. Riscos são passíveis de serem precificados e, mesmo que estejam em patamares elevados, não chegam a travar os investimentos. Já as incertezas inviabilizam a precificação, travando os investimentos, como temos visto atualmente na economia brasileira. Por isso considero que o desfecho da novela sobre o impeachment contribuirá para diminuir uma dessas incertezas.


Buscando não emitir juízo de valor sobre se é golpe ou não, se tem embasamento jurídico ou não, entendo que para qualquer governo é razoavelmente simples ganhar essa disputa. Basta o apoio de 1/3 do congresso. Um governo que não possuí esse patamar mínimo de apoio, venhamos e convenhamos, não tem como governar e é melhor que saia mesmo. Em recente entrevista, até o próprio ministro da Secretaria de Governo da Presidência, Ricardo Berzoini, parece concordar com isso, ao afirmar: “Ou temos votos suficientes para vencer essa parada ou significa que o governo não tem base política para se manter como governo”.

 

Apesar de considerar positivo o desfecho dessa questão, infelizmente acredito que continuaremos patinando na economia. O processo da Lava Jato continua evoluindo e chegando cada vez mais perto de políticos e empresários de grande influência no país.


A Lava Jato tem sido bastante positiva para o país e acredito que ela contribuirá, ao menos, para colocar mais receio aos políticos e empresários acostumados às práticas corruptas, mas enquanto estiver ativa, é um fator inibidor dos investimentos.


Desde o início de 2014, era possível intuir que se as investigações continuassem de forma séria, como tem ocorrido, vários políticos e empresários seriam atingidos.
Admitindo que o governo obtenha o respaldo de mais de 1/3 do congresso e interrompa o processo do impeachment, este fato certamente poderá fortalecer esse governo, mas continuará vulnerável a cada delação premiada que é formalizada e que chegue ao conhecimento público.

 

Na hipótese de ser derrotado, a ameaça continuará. Não é apenas o PT que está envolvido nos problemas da Lava Jato e, caso o processo avance, atingindo os líderes do PMDB, um possível governo de Michel Temer já começará desgastado.

 

Concluindo, a definição do processo do impeachment, será positiva, mas é a Lava Jato que continuará ditando os rumos do futuro do país e, apesar de seus aspectos econômicos negativos, temos de apoiá-la para que continue de forma independente e, na medida do possível, que seja mais ágil.

 

Em época de final de ano, na qual todos buscamos refletir e renovar nossas esperanças, não creio que seja pedir demais, poder sonhar com um país, onde os políticos busquem valorizar o uso do dinheiro público de forma eficiente e que nossos empresários possam ter lucros, sem terem que compactuar com práticas ilegais e imorais.


Apenas quando a sociedade tiver o conhecimento de quem efetivamente está ou não envolvido nesses escândalos e os ver devidamente punidos, independentemente da coloração partidária, retomaremos o crescimento econômico.

 

Somente com essa definição é que quem estiver no poder, devidamente legitimado, conseguirá propor e aprovar as reformas e ajustes necessários para o país voltar a crescer.

 

Flávio Correia, professor de Economia da Faculdade IBS/Fundação Getulio Vargas, graduado em Ciências Econômicas com pós-graduação em Finanças e Mestrado em Administração